MEMÓRIA LUSÓFONA

Dezembro 16 2010

A  Pedra de Dighton não tem sido nenhuma  deusa do amor  tal qual  a  Afrodite (grega) ou  a Venus (romana). Tem exercido, sim, durante séculos, uma atracção fascinante sobre   vários  historiadores, arqueologistas  e até amadores.

Tem sido ofendida fisicamente, danificada na sua face, durante centenas de anos  e até ultrajada com nomes ofensivos como famigerada, misteriosa, mentirosa, etc.

O mais dramático  é que muitos investigadores considerando-se  “sábios”  têm emitido opiniões sobre  as suas inscrições SEM  NUNCA terem  examinado IN LOCO  este monumento!

Isto é a mesma coisa que um médico fazer o diagnóstico duma doença SEM NUNCA ter visto ou examinado o doente! É mesmo para matar! Isso nunca se deve fazer, quando se deseja diagnosticar e tratar cientificamente!

Outra coisa que acontece ainda mais grave é certo número dos chamados historiadores portugueses e americanos  emitirem a suas “doutas” opiniões baseando-se exclusivamente  na face actual da Pedra de Dighton. A FACE ACTUAL  da Pedra de Dighton está cheia de rugas, apanágio duma ‘mulher’ que já passou pela menopausa e já criou vários filhos…Será  correcto pormos de parte toda  sua beleza durante a sua juventude e  de `mulher madura`? Não devemos ser assim cruéis! Devemos ser  pelo menos gentlemen!

Não, não, meus amigos. Para estudarmos  científica e profundamente  a Pedra de Dighton temos que obter uma boa história clínica, como foi a sua juventude  e  a sua adolescência, para compreendermos  completamente o  seu estado actual de ‘mulher’ menopausal e  cheia de rugas…

“The Writing Rock” – antes de 1680

Devemos notar que o primeiro  nome dado à Pedra de Dighton foi “Dighton Writing Rock” ( antes de 1680),  ou seja a “Pedra da Escrita”, como se a sua face plana,  com uma área de 55 pés quadrados,  fosse um quadro  preto numa escola,  onde toda a gente escreveu as suas iniciais  e praticou os mais variados vandalismos...

Até à data ainda NENHUM historiador, melhor NENHUM EPIGRAFISTA  português especializado  nos  séculos XV e XVI  jamais examinou no local a Pedra de Dighton! É confrangedor, para não dizer outra coisa mais lamentável! Mas os  chamados “trutas grandes” em Portugal, como Damião Péres e Luís de Albuquerque  já emitiram as suas “doutas” conclusões. O Albuquerque até chegou a escrever que de Portugal,  (sem nunca ter observado a Pedra de Dighton in loco),  via o seu próprio nome gravado na Pedra de Dighton! O Albuquerque devia ter um lápis muito comprido! Que coisa tão ridícula e tão estúpida! E  têm sido personalidades deste calibre que têm estado a formar as várias gerações de Portugal!

A Juventude da Pedra de Dighton

Para compreendermos bem as inscrições originais da Pedra de Dighton temos que analisar  em pormenor os primeiros desenhos que foram  feitos ANTES   da invenção da fotografia em 1836 (Louis Daguerre) e baseados em decalques directos da face da Pedra de Dighton, sem os seus autores nunca terem pensado nas possibilidades das inscrições originais serem portuguesas.  Portanto nunca  puxaram a brasa à sardinha portuguesa! ….

Cartucho Histórico da Pedra de Dighton

Se tivermos coragem de perguntar aos historiadores de Portugal, ou mesma coisa aos americanos,  quantos é  que conhecem o Cartucho Histórico da Pedra de Dighton, quantas respostas afirmativas é que vamos colher? NENHUMA!

Quem  não souber o Cartucho Histórico da Pedra de Dighton não poderá, de maneira nenhuma, fazer o diagnóstico correcto das respectivas inscrições.

Vamos portanto analisar várias partes da face da Pedra de Dighton  para verificarmos que algumas das  inscrições que eram visíveis e bem claras  há quase quatro séculos,  agora já não são discerníveis devido ao vandalismo que a face da Pedra tem sofrido durante  este longo e secular período!

Primeiro Documento -1680 Se analisarmos o primeiro documento  das inscrições da Pedra de Dighton desenhado  pelo reverendo John Danforth em Outono de 1680  (cujo original está guardado no Museu Britânico em Londres), verificamos, facilmente, que na parte superior da face da Pedra estão desenhadas duas Cruzes da Ordem de Cristo, mostrando nitidamente as extremidades da Cruz da Ordem de Cristo com extremidades em   45 graus!

Desenho de John Bradford -1680 Danforth chamou a estas duas cruzes “navios sem mastros e uma península” para condizer com uma tradição dos Índios Wampanoags da região  “porque tinha vindo uma casa de madeira pelo rio acima”.

Decalque de James Winthrop – 1788.

Cento e oito anos mais tarde, James Winthrop fez um estudo muito mais exacto. Realizou um DECALQUE  das inscrições usando folhas grandes de papel  e depois reproduziu o decalque em escala, num desenho mais pequeno. Neste desenho podemos distinguir uma Cruz da Ordem de Cristo mais completa na parte  superior central das inscrições, mostrando nitidamente uma extremidade em 45 graus.  Do lado norte da Pedra aparece a base de outra Cruz e o chamado “Rosto da Sereia” que são na realidade as Quinas de Portugal.  Do lado do sul da Pedra  começa a desenhar-se o escudo em “V” com outro concêntrico e o braço inferior   de uma outra Cruz de Cristo. Mas James Winthrop não reconheceu nenhum destes símbolos como sendo ícones portugueses.

Baylies e Goodwin- 1790

Dois anos mais tarde, em 1790, Baylies e Goodwin baseados também em decalques oferecem-nos mais detalhes das letras do nome de Migvel Corte Real e do Escudo Português  em forma de um “V”.

Sociedade Histórica de Rhode Island – 1830

Seis anos antes da invenção da fotografia, foi pedido em 1830, à Sociedade Histórica de Rhode Island,  localizada na cidade de  Providence, R. I.  uma  cópia das inscrições da face da Pedra de Dighton para ser enviada para a Dinamarca.  Nesta reprodução foram reveladas as letras M, I  e V , assim como C, O R e parte de T,  do nome Migvel Corte Real  e ainda  o Escudo em foram de “V”.  Mas até esta data nenhum investigador na América ou na Europa relacionou estes símbolos como sendo portugueses.

Delabarre em 1918

Só em 18 de Dezembro de 1918 é  que o Professor Edmund Burke Delabarre, Psicologista e Chefe do Departamento na Universidade de Brown, em Providence, Rhode  Island, quando estava no laboratório   a revelar fotografias,  detectou a data 1511 gravada na Pedra de Dighton. Com esta data começou a procurar na História da Europa  quem é que teria vindo para a América do Norte àvolta de 1511. Principiou  pelos países escandinavos mas finalmente chegou a Portugal onde obteve a informação baseada em Cartas Reais  de que Gaspar e Miguel Corte Real tinham saído de Lisboa em 1501 e 1502 e nenhum jamais  tinha regressado a Portugal.

Delabarre resolveu então rever os VINTE  SETE  desenhos que havia sobre as inscrições da Pedra de Dighton e verificou que vinte um deles mostravam a data 1511 e  por isso escreveu assim: 

“ No dia 2 de Dezembro de 1918 eu distingui claramente e sem sombra de dúvida a data de 1511.  Ninguém a tinha descoberto antes na Pedra ou na fotografia; e no entanto uma vez descoberta, não se pode duvidar mais da sua autêntica presença na Pedra”.

Devemos notar que os antepassados de Delabarre eram descendentes da Bélgica e que ele não tinha uma gota de sangue lusitano. Portanto as suas investigações foram totalmente imparciais.

Delabarre descobriu (1) a data de 1511, (2) o nome de Migvel Corte Real ao centro, (3) o Escudo Português em forma de um “V”, mas apesar de  ter sido condecorado com  a Comenda da Cruz da Ordem de Cristo pelo Governo Português, mesmo com a Cruz de Cristo ao peito,  não foi capaz de descobrir as Cruzes de Cristo gravadas na Pedra de Dighton.

Delabarre hipnotizado pela Pedra

Apesar de Delabarre ser psicologista deixou-se hipnotizar pela Pedra de Dighton, chegando mesmo a inventar uma mensagem em latim  supostamente  gravada na Pedra de Dighton! A hipotética mensagem em latim abreviado era (V. Dei hic Dux Ind  = Voluntate dei hic Indorum) cuja tradução seria = Pela Graça de Deus chefe dos Índios aqui.  Esta menagem em latim tem sido o tendão de Aquiles de Delabarre. Infelizmente esta mensagem continua a ser repetida inúmeras vezes quer pelos escritores americanos,  quer pelos portugueses, geralmente  em notas de rodapé, às quais eu prefiro chamar notas de chulé,  porque continuam a ser usadas pelos macacos de imitação!...

A Pedra de Dighton e Cordeiro de Sousa

O maior epigrafista mundial  foi,  sem dúvida, Jean Champollion, francês,  quando ele descobriu os Cartuchos Históricos de Ptolomeu e Cleópatra e  revelou à humanidade os segredos da escrita antiga dos egípcios.

Em Portugal,  o primeiro epigrafista dos séculos XV e XVI foi Luciano Cordeio, fundador da Sociedade de Geografia de Lisboa e descobridor das inscrições da Pedra de Yelala no Congo, em África.

O Luciano Cordeiro tinha um filho chamado José Maria Cordeiro  de Sousa  que seguiu as pegadas do pai e tornou-se um bom epigrafista dos séculos XV e XVI segundo alguns  estudiosos portugueses  que o conheceram bem.

Eu porque tenho vivido  há 57 anos na América, infelizmente,   nunca tive oportunidade de ler os vários artigos de investigação do Sr. Cordeiro de Sousa. Vim a conhecer o seu nome pela crítica  negativa que fez, repetidas vezes, às inscrições da Pedra de Dighton.  Baseia-se quase exclusivamente na mensagem em latim apresentada pelo Delabarre. Se assim é não posso ter muita consideração pelo Cordeiro de Sousa.   Eu também não concordo com a mensagem em latim mas já disse  porquê! Eu refutei em 1960,  quase há 43 anos, no Primeiro Congresso Internacional dos Descobrimentos na Universidade de Lisboa, as razões porque a mensagem em latim abreviado (V. Dei hic Ind.) não se encontra  gravada  na Pedra de Dighton:

(a) as formas abreviadas são demasiado hipotéticas;

(b) as letras  têm tamanho e formato  inconsistente;

(c)  os navegadores portugueses nunca usaram latim nos marcos dos descobrimentos;

(d) e porque os traços atribuídos ao X e ao N fazem parte dos ângulos da Cruz da Ordem de Cristo que o Professor Delabarre não chegou a descobrir gravada  na Pedra de Dighton.

Para mim é muito fácil concluir que Cordeiro de Sousa NUNCA  reviu os VINTE SETE desenhos das inscrições da Pedra de Dighton ANTES da invenção da fotografia. Em Epigrafia isto é  um comportamento ABSOLUTAMENTE OBRIGATÓRIO!

Quem quiser  fazer o diagnóstico das inscrições originais da Pedra de Dighton, baseando-se apenas naquilo que agora  se  vê na face da Pedra de Dighton, é um incompleto  e não sabe o que está a fazer. Está a enganar-se a si mesmo  e aos outros.  Se é escritor ou professor ainda pior: está a ser maligno, especialmente  para a juventude de Portugal. Isso é ser contra Nação  e contra o Património Português.

Historiadores Açambarcadores

O facto de não termos epigrafistas em Portugal dos séculos XV e XVI explica-se  pela atitude dos chamados professores-historiadores que açambarcam, monopolizam, roubam os espaços e o material aos epigrafistas que por direito lhes pertence. Os historiadores têm medo de perder o tacho e de perder a hegemonia da investigação e do ensino! São como cães agarrados a um osso!  Continuam a servirem-se do material que, repito, pertence realmente aos epigrafistas do séculos  XV e XVI, os períodos mais gloriosos da História de Portugal.

O estudo da  Epigrafia é uma ciência muito mais exacta do que a própria História!   A Epigrafia é a Patologia da Arqueologia! O achado epigráfico é que é a verdadeira prova! O resto é cantiga, é paleio irrelevante!

É por isso que eu nas minhas investigações sobre a Pedra de Dighton tenho usado os mesmos métodos científicos que sempre apliquei na minha prática de Medicina Interna, durante mais de 40 anos! Durante a minha vida médica examinei mais de 300 mil pessoas! A minha profissão tem sido a de um DIAGNOSTICADOR! Fiz mais de um milhão de diagnósticos e muitos entre a vida e a morte! Quantos diagnósticos é que um professor de história fez durante a sua vida profissional?

As maiores descobertas originais de arqueologia e epigrafia têm sido  feitas  por amadores!

Por muito estranho que pareça as maiores descobertas originais da arqueologia e da epigrafia têm sido feitas por amadores e não por professores de história que ensinam nos liceus ou nas universidades! Em Portugal os maiores historiadores foram todos amadores que nunca ensinaram nas escolas:  Oliveira Martins, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Gago Coutinho, etc.  Na América sucede o mesmo!

Cúmulo da velhacaria

No dia 8 de Setembro de 1960, como congressista devidamente credenciado eu apresentei a minha comunicação sobre as inscrições portuguesas da Pedra  de Dighton, no Primeiro Congresso Internacional dos Descobrimentos. O anfiteatro da Aula Magna da Universidade de Lisboa estava repleto, com  mais de dois mil congressistas.

O “Diário de Notícias” de 9 de Setembro de1960, escreveu que eu recebi “a maior salva de palmas do Congresso!” Apesar deste  grande sucesso os directores do referido Congresso, nos sete volumes das Actas do Congresso, eliminaram o meu nome da lista dos congressistas e eliminaram totalmente a minha comunicação ao Congresso! Sem dúvida o maior  gesto de velhacaria que se podia fazer a um congressista devidamente credenciado!

Vejamos o contaste. Na América dois anos depois de eu publicar  em  inglês  (1971)  o meu livro “Portuguese Pilgrims and Dighton Rock”,  uma universidade americana deu-me um “Doutoramento Honoris Causa” pelos  meus estudos como epigrafista da Pedra de Dighton. De Portugal só tenho levado coices dos chamados historiadores!  Mas felizmente quase todos os directores do Primeiro Congresso dos Descobrimentos  já morreram e estão a arder no inferno! Não fazem cá falta nenhuma porque não  deixaram o seu nome numa forma duradoira entre o povo português. É  bem certo  o  que o grande Camões muito bem versou (Canto IV, 33): “Dizei-lhe que também dos Portugueses  alguns traidores houve algumas vezes”.

Conclusão das inscrições portuguesas gravadas na Pedra de Dighton de acordo com as investigações de Delabarre, Fragoso e Da Silva, apresentadas no Primeiro Congresso Internacional da História dos Descobrimentos em 1960:


Bandeira No. 1 – Escudo em forma de "U"

Bandeira No. 2 –Cruz da Ordem de Cristo

Bandeira No. 3 – Escudo em forma de “V”

Ao centro – Nome do Capitão Migvel Corte Real Data de 1S11, com o algarismo 5 em forma de S

Delabarre descobriu: 
(1)   a data 1511, 
(2) o nome do capitão: Miguel Corte Real
(3)  Escudo Português em forma de um “V”.

Fragoso e Da Silva descobriram: as 4  Cruzes da Ordem de Cristo.


 

 

 

 



 

'Navio Escola Sagres', na Baía de Bristol, Rhode Island, em Julho de 1964. Notar as Cruzes da Ordem de Cristo com as extremidades em 45 graus, igualzinhas às que estão gravadas na Pedra de Dighton!

publicado por Instituto Globilíngua às 14:41
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