MEMÓRIA LUSÓFONA

Dezembro 16 2010

O  RETRATO DE MIGUEL CORTE REAL

Por Manuel Luciano da Silva, Médico

Todas as honras desta grande descoberta vão direitinhas para o Doutor Américo da Costa Ramalho, Professor da Universidade de Coimbra e especialista em Cultura Helénica e Humanista,  em Portugal.

Foi  este académico  que descobriu  um  elogio em latim, contemporâneo de Miguel Corte Real, escrito pelo poeta  italiano Cataldo Sículo,  que residia temporariamente em Lisboa   e  foi publicado na colectânea POEMATA, em 1502.

Nunca  ninguém tinha analisado este poema em relação ao navegador Miguel Corte Real. Logo  no começo da sua monografia  o Professor Costa Ramalho alerta-nos:

"Não há dúvida nenhuma de que se trata do famoso Miguel Corte Real e traz, pelo menos,  um subsídio  histórico para  sua biografia, até hoje não aproveitado."

O poema consta de quarenta  e quatro versos dedicado a "michaele curie regalis " ou seja a Miguel Corte Real. Vamos rever a tradução  do referido poema feita pelo Professor Ramalho: O título do poema é como acima se disse --  "Dedicado a Miguel Corte Real".

Nos primeiros versos o poeta expressa a sua "humildade poética" mas ao mesmo tempo  revela bem claro o nome do protagonista como sendo  descendente dos famosos Corte Reais.

Diz o poema:

"Foge-me o talento e a eloquência, apodera-se  de mim o terror, quando tento  dizer os feitos de tão grande capitão".

"É aquele que tem o nome do príncipe celeste  dos cavaleiros e a quem os antepassados legaram o apelido de Corte Real."

"Tudo quanto faz é digno de triunfos, digno de ser posto em tábua de cedro."

"Avô e bisavô o tornaram nobre pelo sangue. E ele os adorava em todas as virtudes."

"Ele tudo realiza, segundo o pensamento de quem lho ordena (o Rei)."

"Cavaleiro ilustre, ora actua como soldado, ora veste armas ligeiras. Em qualquer caso, a sua presença significa victória."

RETRATO FÍSICO E CARACTER

E agora vêm os versos que nos dão em pormenor a aparência, o retrato físico e o carácter do famoso navegador Miguel Corte Real:

"É amável com pessoas amáveis, brando com brandos amigos, mas com os arrogantes torna-se bastante ríspido."

"Não aprendeu  as belas letras na infância, mas ensinado pelo seu talento tudo sabe."

"De aspecto, é sereno e belo, e mais belo é o seu íntimo. Da sua boca eloquente jorra uma graça variada".

"Gosta de dar muito, com mão larga, a quem o merece e piedosamente se esforça  por não prejudicar  a quem o não merece".

PORTEIRO-MOR

Qual era a posição oficial de Miguel Corte Real?

É Cataldo Sículo que nos informa:

"Talvez queiras saber qual é o ofício deste Senhor?

"O Rei confia-lhe todos os encargos. Principalmente como porteiro-mor do palácio  sobre as muralhas, é ele quem, no meio do silêncio geral, manda trazer os alimentos."

"A este homem tão leal confia D. Manuel com razão os seus segredos, tão grande é a virtude que nele reside, tão grande a honra."

GUERREIRO

E agora vem a parte  guerreira de Miguel Corte Real  que era totalmente desconhecida:

"Passou às costas africanas em navios. Era o comandante. Preparava-se para aí conquistar uma fortaleza, pondo-lhe cerco".

"Fosse inveja, fosse o fado iníquo, a multidão dos companheiros  entrega-se a vergonhosa fuga, sob a pressão do inimigo".

"Ele com uma pequena força , faz frente aos africanos que se precipitam ao ataque e retira coberto de sangue, depois de grande morticínio."

E o poeta  Cataldo conclui  o seu poema comparando o  heroísmo de Miguel Corte Real aos heróis da Antiga Grécia.

O Professor Costa Ramalho faz uma análise pormenorizada dos vários dados revelados  neste poema. Explica a origem do nome Corte Real que foi dado à Vasco Eanes, um dos antepassados de Miguel,  pelos grandes serviços prestados à Corte Real presidida pelo Rei D. Duarte.

Confirma a posição de porteiro-mor da Casa Real,  portanto uma das posições mais altas na Corte Portuguesa.

Explica que o verso que diz que Miguel Corte Real "Não aprendeu as belas letras na infância", isso não quer dizer que o navegador era analfabeto!   Quere  dizer, sim,  que  Miguel Corte Real não sabia Latim.  E o Professor Costa Ramalho acrescenta que isto é muito importante para darmos razão ao facto de Miguel Corte Real não ter deixado nenhuma mensagem em latim gravada na Pedra de Dighton. Esta conclusão  é  igual à que afirmei no meu livro "Portuguese Pilgrims and Dighton Rock" publicado em 1971 e esgotado desde 1976.

Infelizmente  a mensagem  que o  psicólogo-historiador,  Prof. Delabarre da Universidade de Brown,  sugeriu   em 1928 de que Miguel Corte Real tinha deixado na Pedra de Dighton   uma mensagem em latim = "V(oluntate) Dei Hic Dux Ind(orum)", significando: " Chefe dos Indios aqui",  é uma FANTASIA  que continua a ser repetida em muitas notas de rodapé,  que na realidade são aquilo a que eu chamo "notas de chulé"!

Outra análise importante do  poema de Cataldo é o facto de ficarmos a saber que  Miguel Corte Real também foi guerreiro nas campanhas de Norte Africa.   Isto é muito importante para explicar a assinatura duma carta dele em 1501 dirigida ao Rei D. Manuel, que o próprio historiador Henry Harrisse teve dificuldade em entender porque não tinha dados que explicassem que Miguel Corte Real jamais tinha estado em  Málaga,  Espanha,  no ano antes de partir para a América do Norte, em 10 de Maio de  1502,  à procura do irmão Gaspar Corte Real que não tinha regressado a Lisboa  da sua segunda viagem  em 1501.

TEORIA PORTUGUESA DA PEDRA DE DIGHTON

O Professor Costa Ramalho conclui o seu trabalho desta maneira:

 

"Durante anos, a teoria prevalecente foi  a do psicólogo, tornado historiador, Professor Edmund Burke Delabarre, que ,  descobriu o  nome de Miguel Corte Real,  o Escudo Português e a data de 1511. Posteriormente  (1951), um professor universitário de Português, José Dâmaso Fragoso, (na "New York University), revelou a existência de heráldica lusa no rochedo - três cruzes da Ordem de Cristo. E um médico de origem portuguesa, estabelecido nos Estados Unidos, o Dr. Manuel Luciano da Silva, tem sido o ardente propagandista da teoria de que o rochedo de Dighton é um documento histórico da presença de Miguel Corte Real  nas costas da América do Norte. Ele nega a mensagem em latim, reduzindo o texto da inscrição ao nome do navegador  e a uma data, 1511, além de um Escudo  Português e três Cruzes da Ordem de Cristo."

Fez, no dia 18 de Dezembro de 1998,  OITENTA ANOS  anos que o Professor Delabarre lançou a teoria portuguesa das inscrições  portuguesas  gravadas na Pedra de  Dighton.  Durante estas oito décadas TODAS  as investigações  só têm servido para consolidarem  cada vez mais a Teoria Portuguesa da Pedra de Dighton.

Claro que fiquei satisfeito com este artigo original do Professor Costa Ramalho que chegou a ser "Visiting Professor"  de Português na "New York University",   entre 1959-1962.   Naquele tempo eu já era médico. Mas a "New York University"  foi a minha primeira "alma matter",  onde eu  me formei em biologia em 1952.

Devemos realçar ainda mais a importância da  investigação  original do Professor Ramalho pelo facto de ser  BASEADA   na  ANÁLISE DUM DOCUMENTO CONTEMPORÂNEO DE MIGUEL CORTE REAL.  Parabéns,  ao ilustre Mestre!

publicado por Instituto Globilíngua às 14:37
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