MEMÓRIA LUSÓFONA

Maio 24 2010
AddThis  Social Bookmark Button

Número 150 · 7 de Abril de 2010 · Suplemento do JL n.º 1031, ano XXX

«A língua portuguesa nunca dorme», Embaixador António Aguiar Patriota, na Conferência de Brasília

Um ‘empurrão’ a uma estratégia concertada de afirmação internacional do português, nomeadamente no sistema das Nações Unidas, saiu da semana de reuniões em Brasília no âmbito da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), que culminou com a aprovação a 31 de Março pelo conselho ministros de um plano de acção a ser apresentado à (VIII) cimeira da organização, este ano, em Luanda.

Os ministros acolheram a proposta do chefe da diplomacia portuguesa, Luís Amado, para a realização em Portugal, em 2012, de um encontro de avaliação da execução do plano de acção, aberto à sociedade civil, tal como a Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, que antecedeu em Brasília a sessão ministerial.

Nos termos do plano de acção, as missões permanentes dos Estados Membros da CPLP em Nova Iorque junto da ONU são chamadas a agirem em coordenação para que o português se torne «língua de documentação» das Nações Unidas, permitindo a «publicação sistemática em português de documentos da Assembleia Geral e do Conselho de Segurança» da organização. Com esse objectivo, os países da CPLP propõem-se mesmo vir a financiar a criação de um corpo de tradutores especializados no âmbito do Secretariado das Nações Unidas e a promover a formação especializada de tradutores e intérpretes para actuação nos organismos internacionais.

CPLP: Plano de acção para  promoção internacional da língua portuguesaA CPLP anunciou igualmente a intenção de, através dos Estados membros, contratar «serviços de interpretação para eventos de alto nível», tanto da ONU como de outras instâncias internacionais, nomeadamente UNESCO, organização relativamente à qual se tenciona, noutra linha de actuação, «dar prosseguimento à iniciativa de adopção do português como língua de trabalho da Conferência Geral» da organização. Um gesto simbólico nesse domínio foi já a interpretação das intervenções em português dos chefes de delegação no debate geral da Assembleia Geral das Nações Unidas, que a Presidência portuguesa da CPLP promoveu em 2008 e que retomou em 2009, desta vez em nome da própria CPLP.

Ainda relativamente à ONU, a CPLP quer também «promover gradualmente a tradução para o português dos portais virtuais das Nações Unidas, com prioridade para o sítio principal e para aqueles cujo conteúdo tem maior impacto para a cidadania nos países da CPLP (direitos humanos, UNICEF, questões sociais, OMS, etc.)», bem como «reforçar o apoio ao Departamento de Informação das Nações Unidas, especialmente à Secção de Língua Portuguesa da Rádio das Nações Unidas».

Em Brasília, o secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, António Aguiar Patriota, declarou que «a língua portuguesa não dorme», numa alusão à sua disseminação por vários continentes. Com efeito, o português é o sexto idioma mais falado em todo o mundo. E é também língua oficial em cerca de 20 organizações internacionais, nomeadamente de cariz continental, como a União Africana, a União Europeia, a União das Nações Sul-americanas. Mas os Estados membros da CPLP pretendem ser «mais ambiciosos, em particular no sistema das Nações Unidas», segundo se afirmava na ‘Declaração da Praia sobre a Projecção da Língua Portuguesa no Mundo’, aprovada na cimeira de Julho de 2009. Para tal é necessário que ajam conjuntamente, quer no domínio político-diplomático quer no domínio prático, com medidas concretas, que o plano de acção agora aprovado contempla.

Conferência internacional

O documento de Brasília teve como base o relatório de peritos produzido sob os auspícios da Presidência Portuguesa da CPLP – por solicitação expressa da ‘Declaração da Praia’ –, depois trabalhado pelas delegações governamentais dos Estados membros na segunda parte conferência internacional sobre o futuro do português no sistema mundial, que decorreu a 29 e 30 de Março na capital federal brasileira.

Dividido em seis partes, o plano de acção elenca um conjunto muito diversificado de medidas para a implantação da língua portuguesa nas organizações internacionais, define estratégias de promoção e difusão do ensino da língua portuguesa, tanto no espaço da CPLP como em países terceiro (o denominado ‘português língua estrangeira’), e faz o ponto do estado de desenvolvimento do acordo ortográfico, abrindo caminho a que venha a ser elaborado sob os auspícios do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP) «um Vocabulário Ortográfico Comum de Língua Portuguesa, que consolide tanto o léxico comum quanto as especificidades de cada país».

O documento aborda também o tema da difusão pública da língua portuguesa – apoiando os esforços do secretariado executivo da CPLP para desenvolver um projecto de televisão da comunidade e «incentivar a sua fase inicial, relativa à formação de uma agência para difusão de informação e conteúdos» – e o da importância da língua portuguesa nas diásporas, tema em que se advoga a oferta curricular do português nos sistemas de ensino dos países e regiões onde existem comunidades de cidadãos provenientes dos Estados membros da CPLP.

A mobilização da sociedade civil em apoio do plano de acção é previsto no documento que anuncia a intenção de introduzir o tema da promoção e difusão da língua portuguesa no I Fórum da Sociedade Civil da CPLP, a realizar ainda este ano.

A sociedade civil dos países da CPLP esteve, aliás, presente na conferência internacional sobre o futuro do português no sistema mundial, que antecedeu a reunião extraordinária de ministros de Negócios Estrangeiros da CPLP dedicada à língua.

Representantes da sociedade civil e especialistas portugueses na área da língua e da comunicação participaram nos trabalhos da conferência internacional, co-presidida pelo Brasil, enquanto país de acolhimento, e por Portugal, na qualidade de Estado que actualmente preside à CPLP. Para além dos Estados membros da CPLP – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste – participaram como convidados representantes dos Estados com o estatuto de observadores associados da comunidade – Guiné-Equatorial, Ilhas Maurícias e Senegal.

Ao lado de escritores, professores, académicos, editores, jornalistas e outros profissionais ligados à difusão da língua dos restantes sete Estados membros da CPLP, Portugal esteve representado na primeira parte da conferência internacional (25-27 de Março), aberta a elementos da sociedade civil dos países da comunidade, pelo embaixador de Portugal em Brasília, João Salgueiro, que falou na sessão inaugural juntamente com representantes de Brasil e Angola, pelo embaixador junto da CPLP, António Russo Dias, pela Presidente do Instituto Camões (IC), Ana Paula Laborinho, pelo Presidente da Agência Lusa, Afonso Camões, pelo Reitor do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa – Instituto Universitário de Lisboa, Luís Reto, pelos professores universitários Ivo de Castro (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Inês Duarte (coordenadora científica do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa), Mário Filipe (Universidade Aberta), João Costa (membro da comissão nacional do Instituto Internacional de Língua Portuguesa - IILP) e pelo jornalista e escritor José Carlos Vasconcelos, director do Jornal de Letras.

A conferência internacional, que teve como palco o Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, contou com um total de dez sessões de trabalho com nove temas, em dois dias.

publicado por Instituto Globilíngua às 20:49
 O que é? |  O que é? | favorito

mais sobre mim
Maio 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
25
26
27
28
29

30
31


pesquisar
 
RSS
blogs SAPO