MEMÓRIA LUSÓFONA

Maio 24 2010

Qual é o Futuro da Língua Portuguesa no Mundo Globalizado?

Caetano Veloso, mesmo ausente do debate, provocando polêmica: suas letras são poesia?

Por Isabel Almeida *

Especial Para Nós – Fora dos Eixos.

A abertura da I Conferência Internacional Sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, que aconteceu no auditório do Itamaray na última quinta-feira (26), contou com a participação de vários representantes da CPLP – Comunidade dos Países da Língua Portuguesa.

Entre elas, o Secretário-Geral das Relações Exteriores, embaixador Antônio de Aguiar Patriota, do Chefe da Delegação Portuguesa, embaixador João Salgueiro, do Diretor da Direção de Europa do Ministério das Relações Exteriores de Angola, Osvaldo Varela, do Secretário-Executivo da CPLP, Domingos Simões e do Presidente da Fundação Roberto Marinho, José Roberto Marinho.

Importância

Hortêncio Langa, compositor: de Moçambique para a I Conferência da CPLP.

Todos os convidados foram unânimes em afirmar o quanto é importante a realização da CPLP para os países membros que precisam estar engajados em melhorar a difusão da língua portuguesa como ferramenta de desenvol

vimento entre os povos.

Para o diretor da Direção de Europa do Ministério das Relações Exteriores de Angola, Osvaldo Varela, o próprio título da conferência já é uma valorização da língua portuguesa. Segundo ele, é preciso implementar o acordo ortográfico e o dicionário em todos os países que falam português.

“O português acabou se enriquecendo com novos vocábulos e, para que se transforme numa língua oficialmente falada, tem que haver um suporte financeiro muito grande, não só político”, afirmou Osvaldo.

Antônio Cícero, poeta, letrista e filósofo: para ele, muitas das letras de Caetano Veloso são poesia.

Globalização

O Secretário Executivo da CPLP, Domingos Simões, acredita que com o mundo globalizado, o português se tornou uma língua importante. Segundo ele, falar inglês hoje em dia não é mais uma vantagem competitiva.

O presidente da Fundação Roberto Marinho, José Roberto Marinho, disse que, desde muito jovem, gostava de escrever para o jornal da família e que há muitos anos sua fundação trabalha em prol da difusão da língua portuguesa.

Ele lembrou o telecurso que a globo oferece aos seus telespectadores e que vem melhorando a vida de muitas pessoas ao longo dos anos. “Desejo sucesso e coloco a Fundação Roberto Marinho à disposição da CPLP”, disse.

Debates

Paralelamente às palestras no auditório, vários temas eram debatidos também no CCBB. No Itamaraty a difusão pública da língua portuguesa nos meios de comunicação de massa contou com a colaboração de vários profissionais da área de mídia que fizeram algumas críticas à CPLP.

Helena Solberg, cineasta: A Palavra (En) Cantada.

Eles sugeriram algumas propostas, como foi o caso da tesoureira da Academia Galega da Língua Portuguesa, Isabel Sanmartim, também escritora. Ela reclamou das conferências não proporem ações concretas. “É preciso que se vá além da mera questão lingüística e valorize as questões culturais como, por exemplo, apoio a projetos culturais”, sugeriu Isabel.

A gerente-geral da Fundação Roberto Marinho, Lúcia Araújo, disse que a maioria das idéias acabam caindo no vazio e a falta de um planejamento mais claro  de onde quer chegar é um dos problemas a serem resolvidos.

Para ela, o brasileiro ainda não está familiarizado com as línguas de cada região; são necessárias ações que visem resolver essas e outras questões acerca da língua dentro do país.

Régis Bonvicino, na platéia, provoca Antônio Cícero.

Para a diretora do Instituto de Cultura Brasil Colômbia, Margarita Duran, o problema encontrado no seu país no ensino da língua portuguesa é a ausência de material para estrangeiros.

Atualização

“Sentimos que a CPLP tem um papel importante para a aproximação da sociedade, mas é preciso a atualização mais consciente e mais rápida das propostas apresentadas”, argumentou Margarita.

A professora Débora Ferreira, que leciona português nos Estados Unidos, foi ao encontro dos argumentos de Margarita. Ela sugeriu que os materiais de ensino fossem mais acessíveis e mais baratos para os alunos.

A diretora do HUB editorial, Susanna Florissi, defendeu a ampliação da língua portuguesa no mundo. Susanna criou uma comunidade na internet para discutir a língua portuguesa. O objetivo é difundir e criar canais de interação para quem quer aprender e quem gosta da língua. O acesso é gratuito e qualquer pessoa pode participar.

Propostas

Susana Florissi

Angola é um dos oito países da CPLP...

No último dia sobre a difusão pública da língua portuguesa nos meios de comunicação, novas propostas foram levantadas como a da professora Maria José Barbosa.

Ela sugeriu a diminuição dos impostos embutidos nos livros importados para que mais pessoas tenham condições de adquiri-los. Esse também foi o argumento levantado pelo professor da Universidade do Rio de Janeiro, que criticou a invasão dos estrangeiros no mercado editorial.

A professora Maria Barbosa pediu que os livros sejam protegidos das grandes megastores, pois, para ele, são as pequenas editoras que sustentam o livro.

Para o assessor de imprensa da embaixada de Portugal, Carlos Fino, a mídia brasileira não dá muita importância à CPLP por desconfiar dos seus objetivos. Segundo ele, até hoje os portugueses não conhecem a história do Brasil, nem tampouco a sua própria história.

...junto com o Brasil...

Carlos propôs parcerias que fomentem a língua brasileira nos países membros. “Apesar da mídia não refletir muito sobre o tema , muita coisa está sendo feita”, disse.

Padronização da Ortografia

...Cabo Verde...

O ponto alto da discussão ficou a cargo do professor Ernani Pimentel. Ele defende a padronização da ortografia mantendo na pronúncia as diferenças regionais e a cultura de cada localidade.

Ernani é representante do movimento Acordar Melhor, que tem um site na internet para recolher o máximo de assinaturas possíveis, para que sejam criados fóruns de debates sobre o assunto.

O movimento já conseguiu que fosse realizada uma audiência pública no Senado Federal onde foi discutido o tema. “Já temos 12 mil assinaturas de várias partes do país. Se tivéssemos um sistema ortográfico racional e lógico, sem exceções, sem duplas grafias, os alunos aprenderiam e não precisariam decorar nada”, explicou Pimentel.

Literatura e música em português

...Guiné-Bissau...

No encerramento das mesas redondas que estavam sendo realizadas no CCBB – Centro Cultural do Banco do Brasil, autores nacionais e internacionais discutiram: A língua portuguesa; e o outro: a convivência do português com outras línguas e dialetos.

A pauta incluiu ainda discussões sobre a CPLP online: a difusão da língua portuguesa na internet. Entretanto, a mais calorosa e concorrida pelo público gerou em torno da literatura e da música.

O português Abel Barros Baptista coordenou a conversa entre o poeta e compositor Antonio Cícero, o professor e tradutor David Treece do Reino Unido, a produtora e diretora de cinema Helena Solberg e o músico e escritor Hortêncio Langa de Moçambique.

Cultural oral

Helena Solberg começou dizendo que o forte no Brasil é a cultura oral e não a letrada. E que a música permitiu uma solução, com músicos que escrevem belas letras.

...Moçambique...

Para David Treece, fora do Brasil se conhece a música não pela qualidade de seus compositores, o que é uma falha. “Mas é a canção que nos dá a possibilidade de habitar e vivenciar outra cultura. O primeiro passo para esse diálogo linguístico

...Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, têm uma população aproximada de 250 milhões de pessoas que falam a Língua Portuguesa. A questão é: este idioma tem futuro no mundo globalizado?

ocorre por meio da música”, acredita.

Régis Bonvicino

A discussão mais acalorada surgiu quando o poeta Régis Bonvicino, que estava na platéia, provocou Antonio Cícero, quando disse que não concordava que algumas letras de músicas poderiam ser consideradas poesias, confrontando Antonio, que considera as letras do cantor Caetano Veloso poéticas.

“Não se pode determinar isso. Uma boa letra de música é possivelmente (e não necessariamente) um bom poema. Como é o caso do cantor Caetano Veloso, que tem letras que podem ser lidas como poemas”, retrucou Antonio Cícero.

Foi preciso a intervenção do conselheiro Fortuna para que a discussão não se prolongasse. Ao final, Abel Baptista ironiza: “Vamos promover as olimpíadas de letrismo contra os poetas”.

* Isabel Almeida é jornalista e blogueira. www.bsbsflash.com.br

publicado por Instituto Globilíngua às 20:42
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