MEMÓRIA LUSÓFONA

Maio 24 2010

Senhores Ministros, 
Senhor Secretário-Geral do Itamaraty, Embaixador Antônio Patriota, 
Senhor Diretor do Museu da Língua Portuguesa, que organizou generosamente esta exposição, 
Autoridades da CPLP e do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, 
Meu querido Embaixador Lauro Moreira, que durante tantos anos se destacou como o primeiro Representante brasileiro junto à CPLP, 
Embaixador Ruy Nogueira, 
Amigos, 

Eu aproveito esta oportunidade para dar as boas-vindas aos participantes da Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa. Até por que não vou poder estar presente nos demais dias do evento. Isso porque terei que chefiar a delegação do Brasil presente à Conferência de Doadores para o Haiti - naturalmente uma conferência que trata de um assunto emergencial e de grande interesse para nós -, que deverá angariar recursos da comunidade internacional para a reconstrução daquele país. O Secretário-Geral do Itamaraty, na qualidade de Ministro interino, irá conduzir, pelo lado brasileiro, os trabalhos desta Conferência. 
Esta exposição de hoje, organizada pelo Museu da Língua Portuguesa de São Paulo - um exemplo, aliás, de instituição cultural - abre a Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial. A sequência de eventos, que culminará com a Reunião Extraordinária do Conselho de Ministros da CPLP, tem como propósito refletir sobre ações tendentes ao fortalecimento e à difusão da línguaportuguesa no mundo. 
Na Conferência, vão ser analisadas propostas para a implantação do idioma em foros multilaterais. O que já começou a ocorrer: a Organização Mundial de Propriedade Intelectual, por exemplo, já utiliza a línguaportuguesa em algumas de suas sessões. Estamos trabalhando para que isso ocorra na Unesco e para, quem sabe no futuro, outros organismos façam o mesmo. 
Também visa a Conferência a trabalhar pelo fortalecimento do ensino da língua portuguesa, atender ao expressivo contingente de cidadãos oriundos de países lusófonos na Diáspora e também trabalhar para a maior difusão da língua nos meios de comunicação internacionais. Vamos também analisar, nesse processo, a implantação do Acordo Ortográfico, que é um instrumento indispensável para uma verdadeira política da nossa língua
A exposição de hoje valoriza, digamos, a "porosidade" da língua portuguesa às influências locais e externas. O português é, assim, um idioma "mestiço". E, plagiando João Cabral de Melo Neto, que reflete a nossa "alma mestiça". 
Estima-se que há 245 milhões de pessoas que falam a língua portuguesa no mundo. É idioma oficial de oito países espalhados em quatro continentes. Embora não estejamos em uma competição: o portuguesa é hojelíngua oficial para mais pessoas do que é o francês, que é língua oficial das Nações Unidas. 
O Brasil assume compromisso de promoção do idioma no mundo como objetivo de sua política externa. Pessoalmente, tenho um envolvimento muito forte com a causa da promoção da língua portuguesa já há muitos anos. Como Diretor do Departamento Cultural do Itamaraty - está aqui presente a Ministra Eliana Zugaib, que é minha sucessora no cargo - participei da organização da 1ª Cúpula dos Países Lusófonos, em São Luís do Maranhão, em 1989, por convocação do Presidente Sarney e inspiração do Embaixador José Aparecido de Oliveira. Como Ministro do Governo Itamar, presidi, em Brasília, o 1º Encontro dos Chanceleres dos Países de Língua Portuguesa, evento precursor da CPLP. 
Como mencionei o Zé Aparecido, é indispensável fazer uma homenagem a esse grande brasileiro que foi o principal idealizador da CPLP. Como Embaixador do Brasil em Lisboa, Zé Aparecido trabalhou tenazmente para viabilizar a constituição da entidade, que, na realidade, só viria a ser fundada em 1996. 
Não sei se está aqui presente o filho dele, o Deputado José Fernando, mas gostaria de recordar também que na viagem que o Presidente Lula fez a Maputo, ele batizou com o nome de José Aparecido de Oliveira o Centro Cultural Brasil-Moçambique. 
Falar neste Centro Cultural é especialmente emocionante para nós - e para mim particularmente -, porque foi uma criação para a qual, digamos, conspiraram três pessoas: o próprio Embaixador José Aparecido, que era o Ministro da Cultura na época; eu, que era Diretor do Departamento Cultural; e o Embaixador Nazaré, que era o então Embaixador do Brasil em Moçambique. Tivemos que fazer mágicas orçamentárias - fizemos tudo corretamente, como não poderia deixar de ser - para conseguir os recursos necessários para alugar aquele Centro. Tivemos que cancelar alguns concertos na Sala Priel em Paris ou algumas exposições na Galeria Debret para viabilizá-lo. A despeito do ceticismo que alguns demonstraram inicialmente, por estarmos lidando com um país jovem, com instituições supostamente precárias, o Centro funciona seguramente há mais de vinte anos, de modo que aquele aluguel já foi pago e repago algumas dezenas de vezes graças àquele gesto. O Centro é, portanto, muito importante. E para quem preza cultura, como é o nosso caso, o Centro demonstra como a promoção cultural desempenha um papel político. 
Dois a três anos depois, já estava como Embaixador em Genebra, tive a grata surpresa ao abrir o "International Herald Tribune" e ler artigo sobre Moçambique, que ainda se encontrava em plena guerra civil, antes, portanto, dos acordos de paz. E o artigo dizia que a cidade de Maputo era uma cidade deserta, que tudo faltava e que, do ponto de vista cultural, a única coisa que pulsava era o hoje Centro Cultural José Aparecido de Oliveira, então Centro de Estudos Brasileiros em Moçambique. Vê-se, portanto, que papel importante esses Centros podem ter no próprio desenvolvimento dos países. 
O Presidente Lula atribui grande importância à promoção da língua portuguesa no mundo e à aproximação com os países de língua portuguesa. Foi o primeiro Presidente brasileiro a visitar todos os países da CPLP. Desde o início do Governo, abrimos (ou reabrimos) Centros Culturais brasileiros em Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e estamos em processo de instalação de outro em Timor-Leste, para se somar aos que já existiam em Moçambique e Guiné-Bissau. 
Há pouco tempo, quando visitei Guiné-Bissau, vi que o curso que foi montado no Centro Cultural naquele país já tem mais de 800 alunos - um número fenomenal. Estes centros estão, na realidade, ajudando a produzir cultura nesses países, além de ajudar a universalizar a língua portuguesa para facilitar seu uso internacional, científico e acadêmico. 
Como mencionei alguns dos Centros Culturais, não quero perder a oportunidade de fazer referência a homenagem que o Presidente Lula fez quando decidiu a criação do Centro Cultural em Angola, que ainda funciona em acomodações muito modestas. Mas estamos trabalhando para que, muito em breve - como, certamente, o Embaixador Ruy Nogueira, que comanda toda essa área, poderá atestar -, o Centro Cultural em Angola tenha a dimensão de que a nossa relação com aquele país merece E este Centro Cultural o Presidente Lula denominou Ovídio de Andrade Melo. O Embaixador, meu primeiro chefe no exterior, foi, coincidentemente, o Representante Especial do Brasil, em Angola, durante o Governo de Transição. 
Uma das coisas importantes que eu ouvi nessas minhas andanças pela África - especialmente pela África delíngua portuguesa - foi um comentário do então Ministro angolano das Relações Exteriores, que me contou que o reconhecimento pioneiro pelo Brasil do Governo de Angola - que era, na realidade, do MPLA - foi absolutamente decisivo para a pacificação do país, ao menos em Luanda. Foi um gesto de grande coragem. E o nosso Representante em Angola naquele momento era o Embaixador Ovídio de Andrade Melo, que hoje é homenageado com o nome do Centro Cultural do Brasil naquele país. 
Falando de língua, a gente não pode deixar de falar em poesia. Eu sei que é batido, mas não há como deixar de lembrar o verso de Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa". Vamos fazer uma pequena variante, talvez um pequeno silogismo, embora não necessariamente esses exercícios de lógica sempre combinem com a poesia. O poeta brasileiro Vinícius de Moraes disse: "Minha pátria é a luz, o sal e a água". Combinando os versos Fernando Pessoa aos de Vinícius, podemos dizer que a língua portuguesa é "a luz, o sal e a água", que são, no limite, a própria vida. 
Nesse espírito de celebração do idioma, do diálogo e da vida, quero convidá-los para conhecer a exposição e, em seguida, para ouvir o show da Maria Bethânia. 

Bem-vindos. 

Muito obrigado

publicado por Instituto Globilíngua às 19:54
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